Fumar maconha agride o meio ambiente?

A indústria da cannabis movimenta 13 bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos. Sem dúvida, é um grande negócio. No entanto, diversos estudos revelam que o cultivo de maconha – e, consequentemente, o seu consumo – pode agredir o meio ambiente, com impactos nocivos para a vida selvagem, a água, o clima e o ar. eCycle

No ano de 2020, um painel de especialistas da National Association of Regulatory Utility Commissioners sugeriu que a conta de energia para a indústria legal da cannabis nos Estados Unidos poderia chegar a cerca de US $ 11 bilhões. Blog Cannabis

Outro relatório divulgado no mesmo ano por Evan Mills, Ph.D. do Lawrence Berkeley National Laboratory, e Scott Zeramby, afirmou que a produção de cannabis em ambientes fechados usa 20 bilhões de quilowatts-hora, produz até 15 milhões de toneladas métricas de CO2 e resultou em despesas monetárias de $ 6 bilhões por ano.

Um estudo realizado por Hailey Summers, Jason Quinn e Evan Sproul – os alunos graduados responsáveis ​​por esta pesquisa – da Colorado State University mostrou a dimensão dos impactos da indústria da cannabis, em franca expansão nos Estados Unidos, publicado na Nature Sustainability, o estudo se baseia na avaliação do ciclo de vida das operações de cannabis em ambientes fechados nos EUA, analisando a energia e os materiais necessários para cultivar o produto e calculando as emissões de gases do efeito estufa correspondentes.

Fumar maconha
Estudos apontam que o cultivo de maconha nos EUA tem efeitos nocivos para o meio ambiente

O cálculo que o estudo fez é que, nos Estados Unidos, para cada quilo de buds secos produzidos em cultivos indoor, são emitidos entre 2.200 e 5.100 quilos de CO2. Para ter uma referência: os atuais regulamentos europeus sobre emissões de CO2 para veículos novos obriga os fabricantes a garantir que os veículos, em média, não excedam 95 gramas de CO2 por quilômetro. Ou seja, para uma viagem de 1000 quilômetros, os veículos não podem ultrapassar a emissão de 95 quilos de CO2. DaBoa Brasil

O desenho do estudo da CSU imitou um armazém típico de cultivo de cannabis, com HVAC, lâmpadas de cultivo, pesticidas e fungicidas e água aplicada por irrigação por gotejamento “a uma taxa média de 3,8 litros. Por planta e por dia”.

Durante o trabalho, a equipe descobriu que as emissões de gases de efeito estufa da produção de cannabis são amplamente atribuídas à produção de eletricidade e ao consumo de gás natural de controles ambientais internos, luzes de cultivo de alta intensidade e suprimentos de dióxido de carbono para o crescimento acelerado das plantas.

Os esforços do grupo CSU atualizam o trabalho anterior de pesquisadores do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, que quantificou as operações de cultivo em pequena escala na Califórnia e antecedeu a cascata de legalização nos estados norte-americanos desde 2012, que começou no Colorado. Até o momento, 36 estados já legalizaram uso medicinal de maconha e 15 legalizaram o uso recreativo.

A equipe da CSU supôs que haveria uma variabilidade substancial nas emissões dependendo da região de cultivo do produto, do clima e das emissões da rede elétrica. O trabalho capturou o potencial de propagação através do país de grandes armazéns comerciais para o cultivo de cannabis e modelou as emissões para vários locais de alto crescimento em todo o país.

Os pesquisadores ficaram surpresos ao descobrir que a eletricidade não é a única causa importante de emissões, mas que os sistemas de aquecimento, ventilação e ar condicionado das plantações tinham a maior demanda de energia. É por isso que a quantidade de CO2 emitida flutua de acordo com o clima, por exemplo, na Flórida é necessária mais desumidificação dos cultivos, enquanto no Colorado o aquecimento é mais importante.

Os resultados revelam que o cultivo de cannabis em ambientes fechados nos Estados Unidos resulta em emissões de gases de efeito estufa do ciclo de vida entre 2.283 e 5.184 quilogramas de dióxido de carbono por quilograma de flor seca.

Os números ainda foram comparados às emissões do uso de eletricidade no crescimento de cannabis ao ar livre e em estufas, que é de 22,7 e 326,6 kg de dióxido de carbono, respectivamente, de acordo com o relatório da New Frontier Data 2018 Cannabis Energy. Esses números consideram apenas eletricidade, enquanto a estimativa dos pesquisadores da CSU é mais abrangente, mas a comparação ainda destaca a pegada de carbono muito maior nas operações de cultivo interno.

O alto consumo de energia do cultivo da cannabis se deve em parte à forma como o produto é regulamentado. No Colorado, muitas operações de cultivo devem estar próximas às lojas de varejo, o que causou uma explosão de armazéns internos que consomem muita energia em áreas urbanas como Denver.

De acordo com um relatório do Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente de Denver, o uso de eletricidade para cultivo de cannabis e outros produtos cresceu de 1% para 4% do consumo total de eletricidade de Denver entre 2013 e 2018.

Na Califórnia, o cultivo de cannabis requer quase 22 litros de água por planta por dia durante a estação de crescimento, o que soma três bilhões de litros por quilômetro quadrado de plantas cultivadas em estufa entre junho e outubro. Durante o período de baixo fluxo, as demandas de irrigação para cultivo podem exceder a quantidade de água que flui em um rio, deixando pouca água para sustentar a vida aquática.

Alguns dos maiores infratores ambientais são agricultores que operam fazendas não autorizadas em terras públicas. Esses problemas costumam ocorrer em florestas nacionais ou em terras tribais, onde a água é desviada dos riachos para irrigar hectares de plantas. Em 2018, havia cerca de 14 mil plantações de invasão em terras federais e privadas apenas no condado de Humboldt, Califórnia.

Na Floresta Nacional Shasta-Trinity, também na Califórnia, uma equipe do Integral Ecology Research Center, ou IREC, uma organização sem fins lucrativos dedicada à conservação da vida selvagem, removeu mais de oito quilômetros de linhas de irrigação que desviaram mais de 500 mil galões de água por dia para irrigar plantas de cannabis.

Os locais de cultivo também interferem na restauração de habitats degradados. Grupos ambientais locais reclamaram que os cultivos sobrecarregaram seus esforços de conservação e, em alguns casos, interromperam as restaurações em andamento ou tornaram o trabalho mais perigoso, de acordo com um estudo de 2018 publicado no Humboldt Journal of Social Relations. O crescimento drenou e poluiu córregos, causou a degradação de bacias hidrográficas e foi responsável pela morte de animais selvagens.

O crescimento da invasão, que usa grandes quantidades de rodenticidas tóxicos para impedir que os roedores mastiguem as linhas de irrigação, tem sido associada à morte de peixes, pássaros e mamíferos. Um estudo descobriu que 79% dos animais que consomem peixes na região – pequenos mamíferos carnívoros, coletados na Califórnia entre 2006 e 2011 – foram expostos a pesticidas em locais de cultivo invasivos. Veados-mula, raposas cinzentas, coiotes, corujas-pintadas-do-norte e corvos também foram vítimas de envenenamento ligado ao cultivo de cannabis.

Desde que as lojas do Colorado começaram a vender legalmente maconha recreativa em 2014, as emissões das mais de 600 instalações de cultivo licenciadas em Denver geraram preocupações sobre a poluição do ar. Uma pesquisa mostrou que as plantas de cannabis produzem compostos orgânicos voláteis (VOCs) que podem gerar poluentes prejudiciais no ar, chamados terpenos que, quando misturados com óxido de nitrogênio e luz solar, formam aerossóis que degradam a camada de ozônio.

Ainda não se sabe precisamente quais são os efeitos do cultivo de cannabis em larga escala para o meio ambiente, uma vez que a legalização nos Estados Unidos e o consequente desenvolvimento de estudos a respeito do assunto são relativamente recentes.

Na Califórnia, onde até 70% da cannabis legal daquele país é cultivada, o Departamento de Alimentos e Agricultura da Califórnia regula o processo de licenciamento, mas muitos condados e municípios também têm autoridade para conceder licenças de cultivo – e os regulamentos são altamente variáveis.

Além disso, o mercado negro de cannabis ainda existe. Afinal, a maconha oriunda do mercado ilegal é mais acessível, e nem todos os produtores estão dispostos a passar pelo devido processo para se tornarem legais.

De acordo com Jason Quinn, professor associado do Departamento de Engenharia Mecânica da Colorado State University e principal autor do estudo, há pouca ou nenhuma regulamentação de emissão para o cultivo de cannabis em ambientes fechados.

Os pesquisadores sugerem que se o cultivo de cannabis em ambientes fechados fosse totalmente convertido em operações ao ar livre, o Colorado “veria uma redução de mais de 1,3% nas emissões anuais [de gases de efeito estufa] do estado”, seja o equivalente a 2,3 milhões de toneladas de carbono.

Os padrões de eficiência energética podem ajudar a garantir menos desperdício de produção. Além disso, com uma regulamentação adequada, os produtores seriam incentivados a usar técnicas modernas de irrigação ao ar livre.

A legalização pode trazer benefícios, mas políticas e ações para mitigar os efeitos nocivos do cultivo são necessárias.

Uma vez que a indústria da cannabis ainda é muito nova, resta esperar que possamos fazer mudanças rápidas que não sejam tão prejudiciais ao meio ambiente. “Gostaríamos de tentar melhorar os impactos ambientais antes que eles se tornem parte da maneira de fazer negócios.”

Publicado por Edson Jesus

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