Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora

O EPISÓDIO DE RICK AND MORTY QUE ME FEZ ENTENDER A SOCIEDADE

Em dezembro de 2014, o Adult Swim — bloco do canal de desenhos Cartoon Network que, de noite, passa séries animadas voltadas para o público adulto — lançou “Rick and Morty”. O programa conta a história das aventuras de um cientista, Rick Sanchez, com o seu neto, Morty. Logo, a sitcom de ficção científica em animação acabou se tornando, para a surpresa dos próprios criadores, um enorme sucesso, e hoje está disponível no Brasil pelo Netflix. Balaio Cultural – João Luiz

No entanto, através do sofisticado – às vezes, nem tanto – humor que é acompanhado de viagens interdimensionais e referências pop, o desenho aborda questões filosóficas extremamente profundas. É por isso que Rick and Morty deve ser analisado com um olhar mais cauteloso e reflexivo do que o normal. Não se trata de um humor non-sense, mas sim, de uma comédia que explora as maiores questões existenciais com bastante inteligência.

Esse episódio é muito bom e mostra várias coisas da nossa vida em sociedade. Espero que gostem da minha analise, e por favor comentem a de vocês. Rick and Morty – EP 7 da 3° temporada

Para quem ainda não assistiu “Rick and Morty”, recomendo que faça isso assim que possível. A série, que é um desenho, funciona muito próxima do que ocorre no seriado “Black Mirror”, que não é um desenho (se você não assistiu essa também, fica uma segunda recomendação), suscitando reflexões sociológicas, antropológicas e filosóficas ao fim de cada episódio. dispararelo

Apesar de já ter assistido a totalidade das duas primeiras temporadas de Rick and Morty, vez ou outra coloco algum episódio aleatório para ter a oportunidade de refletir algo que tenha passado batido anteriormente. Desta vez o episódio foi “Olha quem está expurgando” (Ou no original: “Look Who’s Purging Now”).

Nesse episódio, o avô e o neto acabam indo para um planeta onde os seres escolhem uma noite por ano para o que denominam como “expurgar”. O verbo, segundo o dicionário, tem o sentido literal de “limpar, retirar a sujeira”, no sentido figurado o significado é de libertar-se do que é prejudicial, corrigir ou livrar-se das falhas.

Bem, e como os seres desse planeta fazem isso? Acertou quem pensou em “justiça com as próprias mãos”. Contudo, o episódio não deixa claro que os personagens escolhem esse dia – noite, no caso – para “fazer justiça” (apenas no trecho final), pelo contrário, o que fica evidente é que o ritual é adotado há tanto tempo que perdeu seu sentido e a noite do expurgo se tornou meramente uma ocasião no ano para violência gratuita, para que os seres possam cometer crimes como roubos e assassinatos sem punição, e para que possam libertar seus instintos primitivos.

Ao longo do episódio somos apresentados à triste realidade do planeta que, para manter a paz nos demais dias do ano, mata grande parte de sua população em um único dia. Porém, quando achamos que estamos diante da regra para todos os habitantes do planeta e que se trata de uma mera sociedade fictícia, é trazido a nosso conhecimento que [ALERTA DE SPOILER] apenas os camponeses, os pequenos e médios empresários (estereotipados) e a classe trabalhadora é que participam do expurgo. As classes dominantes do planeta, aristocratas e bilionários, estão em suas mansões na noite do expurgo, isolados e protegidos, com todo conforto e proteção que só o dinheiro pode comprar, brindando durante um jantar para comemorar o sucesso da noite do expurgo.

Assim, agora peço que se atente ao significado da palavra que citei acima: “libertar-se do que é prejudicial, corrigir ou livrar-se das falhas”. Portanto, fica exposto que a noite de expurgar é meramente uma forma de… Vou definir a finalidade com as palavras do próprio anfitrião do jantar da aristocracia do planeta retratado no episódio, que assim propõe o brinde: “A mais um ano bem sucedido do festival! Colocando pobres uns contra os outros por milhares de anos”.

Deu para compreender? A noite de expurgar é uma forma de entreter as classes mais baixas e fazer com que exista uma maneira de controle da população, dando a eles “vilões” e razões para matarem-se entre si, fazendo com que se esqueçam da desigualdade e suas causas, fatores que assolam o planeta e acabam sendo responsáveis por tantas mortes. É uma forma de engenharia social, que é retratado em “Black Mirror” no episódio “Engenharia Reversa” (penúltimo da terceira temporada), onde se trabalha a cabeça do indivíduo a ponto dele estereotipar um inimigo e sentir prazer em eliminar esse inimigo.

Então compreendemos que o episódio não se refere a uma sociedade de um planeta fictício. O episódio é uma crítica a nosso sistema, onde os ricos produzem leis penais (No Brasil, as leis de Direito Penal só podem ser produzidas no Congresso Nacional, portanto, é preciso ser Deputado ou Senador para dizer o que será ou não será crime), ou ainda, quando não são ricos, esses congressistas são eleitos (e manipulados) com dinheiro de empreiteiras, grandes empresas ou graças a interesses de uma classe abastada da sociedade.

Isso não ocorre apenas no Brasil. Nos EUA, o famoso Lobby é até legalizado no Congresso. Mas tratando do Brasil, especificamente, o episódio muito me lembrou o que o jurista Eugênio Raúl Zaffaroni citou em seu livro “Sistema Penal e Ameaças ao Estado Democrático de Direito”. Não vou me estender mais nesse texto que está demasiadamente longo, mas deixarei um trecho da página 32 da edição de 2006 do livro, que eu mesmo adaptei para ficar mais acessível:

“Os policiais, especialmente a faixa daqueles que põem o corpo em contato com a violência, daqueles que são mortos – e isso acaba sendo considerado um acidente de trabalho no caso deles – Pergunto: De onde eles são selecionados?

Respondo: Da mesma faixa social de quem eles próprios lutam contra! Qual será a técnica de controle dos excluídos? É bastante claro! Os criminalizados, os vitimizados, e também os ‘policizados’ são todos selecionados na mesma faixa social: a CLASSE BAIXA.

A técnica é introduzir contradições e a maior violência no interior da mesma faixa social: menores possibilidades de dialogar; menores possibilidades de esclarecer e de conscientizar; menores possibilidades de se organizar; e, portanto, menores possibilidades de ter um protagonismo político para essas classes.

Os ‘donos do dinheiro’ querem nos dizer: “Fiquem matando-se entre vocês, pobres criminalizados ou ‘policizados’ e não mexam com nós, que somos os 30%, os 25% dos incluídos… Pois enquanto se matam, tudo bem para nós! Aliás, vão ficando menos, o que também é bom, embora tenham uma grande capacidade de reprodução”.

Creio que ficou evidente a relação do episódio de Rick and Morty com o texto de Zaffaroni, que expõe as vísceras da sociedade, mostrando como a legalização do porte de armas, a regulamentação do uso e comércio de drogas e a forçada estrutura social que foi imposta ao mundo através de uma cultura de desigualdade para manutenção do poder, acaba sendo a nossa “noite do expurgo”, uma noite que nunca acaba, que mata “criminosos” com prazer, que infelizmente mata nossos policiais como se a farda fosse um alvo que despertasse ódio nos “criminosos”, e que mata inocentes aos montes, dia após dia, nas periferias de nossas cidades.

Enquanto expurgamos ou enquanto cada um dos lados dessa luta comemora a morte de um “inimigo”, as classes abastadas e a aristocracia brinda em suas ilhas ou em mansões cercadas por toda blindagem e segurança que somente quem tem muito (mas muito dinheiro) pode comprar.

No episódio do desenho, a solução proposta foi equipar uma personagem “pobre” daquele planeta com armadura para que ela matasse todos os ricos, no melhor estilo Robespierre com a guilhotina na Revolução Francesa. Mas e no nosso caso, há solução? Entendo que sim, mas atualmente o que nos é apresentado é uma guinada conservadora, com pessoas que dedicam suas vidas para acentuar os fatores que preservam nossa eterna noite do expurgo (o que acabou acontecendo ao fim do episódio, onde as pessoas, ao invés de buscarem um diálogo, resolveram que o expurgo seria uma solução, e provando que não há espaço para um salvador ou salvadora da pátria, e que o caminho teria de ser outro, não o imediatismo, visto que o expurgo estava impregnado na mentalidade da população, como é o caso da nossa sociedade), mas isso é assunto para uma outra hora.

A série animada mais engraçada dos últimos tempos é muito mais profunda do que aparenta, oferecendo uma bela lição de vida.

Em “A Gaia Ciência”, de 1882, Nietzsche ofereceu à humanidade 383 aforismos que foram os predecessores de seu magnum opus, “Assim Falou Zaratustra”. É nesse livro que o filósofo alemão introduz a fundamental ideia da morte de Deus, que, é importante lembrar, jamais deve ser encarada como uma celebração ateísta. O assassinato de Deus, anunciado no aforismo 125, é o início de uma crise civilizacional sem precedentes: a sociedade antes regida por uma vida e por um sistema de valores da antiga metafísica, no qual a Igreja desempenhava uma importância crucial, deixou de existir.

Rick and Morty explora muito as consequências da civilização que acabou de perder o seu referencial de e para tudo: Deus. Toda uma sociedade que colocava Deus no centro – cujo ápice foi a Idade Média – e que era regida por valores daí oriundos, ruiu. A constatação de Nietzsche não é por acaso: o filósofo viveu no fim do século XIX, no auge do Iluminismo e enquanto uma enorme revolução científica acontecia. Mas o filósofo via isso como uma crise da civilização, que ainda, para ele, não estava pronta para tamanha façanha. Dessa forma, a vasta maioria das pessoas, em sua visão, foram tomadas por um terrível niilismo, de forma a passarem a encarar a existência como um fardo, algo que deve ser enfrentado. Assim, até mesmo o tempo passou a ser visto de forma negativa, como algo ruim a se carregar e que deve ser combatida, passado, matado. Afinal, eis toda a ideia de um “passatempo”.

Diz Nietzche, na parte 125 de “A Vontade do Poder”, que “o socialismo* – como a tirania pensada até as últimas consequências dos mais miúdos, dos mais tolos, dos mais superficiais, dos invejosos, dos setenta e cinco por cento atores – é de fato a conclusão das «ideias modernas» e de seu latente anarquismo: mas no ar morno de um bem-estar democrático afrouxa-se a capacidade de concluir, ou de se chegar de fato à conclusão”. Isso tudo para, depois, prosseguir: “Em muitos lugares da Europa pode-se chegar a golpes de mão, a investidas: com relação ao próximo século trata-se fundamentalmente de “rumores” no corpo, aqui e ali, e a Comuna dos parisienses, que também na Alemanha tem os seus oradores de defesa, seus advogados, foi talvez somente uma indigestão mais leve, se a medirmos com o que virá.

*Nota do autor: Vale a lembrança de que o conceito de socialismo aqui utilizado por Nietzsche é muito mais amplo, bastando recordar que o partidos dos nazistas se auto-intitulava «nacional-socialista».

Já na seção de Ecce Hommo “Por que sou um destino”, Nietzsche diz que “haverá guerras como ainda não houve sobre a Terra”. Ou seja, Nietzsche previu o que aconteceria mesmo vivendo em uma época na qual a humanidade acreditava estar diante de um patamar do progresso tão elevado que jamais haveriam novos conflitos armados na Europa – o que as Guerras Mundiais desmentiram, e muito. Isso tudo, para Nietzche, seriam consequências inevitáveis da morte de Deus.

Crime e Castigo é um romance publicado em 1866. É o nono do escritor e jornalista russo Fiódor Dostoiévski, questiona-se a possibilidade de até o ato de tirar a vida de alguém poder ser justificado, aceitável. Afinal, com a morte de Deus, todos os pilares da civilização ocidental ruíram, inclusive o da moral. E Rick and Morty explora exatamente o mesmo tema, principalmente no episódio “Look Who’s Purging Now”, o nono da segunda temporada. Nele, os dois protagonistas do seriado acabam indo parar em um mundo no qual, por um dia no ano, é permitido se assassinar pessoas — uma clara referência ao filme “The Purge”, de 2013, que estrela Ethan Hawke.

Os seres humanos ainda não estão preparados para a grandiosidade do evento da morte de Deus, o que é evidenciado pelo fato de alguns sequer a enxergarem. Dessa forma — vivendo em uma sociedade guiada em nada, uma vez que o antigo polo já não mais existe — , muitos ficam presos nas mais terríveis formas de niilismo; para estes, a individuação passa a ser vista, de fato, como um sofrimento. Somos parte de uma sociedade criando novos valores, ou, no caso de alguns, vivendo sem eles enquanto isso. Como o personagem Mersault, na obra “O Estrangeiro”, de Albert Camus, acaba personificando:

“Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile : « Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.”

Mas Nietzsche também apresentou uma solução para isso: a ideia do eterno retorno. Esse pensamento está expresso de maneira clara — antes da explicação ambígua, porém linda, em “Assim Falou Zaratustra” que não pode ser explorada em sua plenitude neste artigo — no aforismo 341 de “A Gaia Ciência”:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: «Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!» (…)”

Albert Camus, em fotografia divulgada no jornal francês Le Fígaro. (Foto: René Saint P., Rue des Archives) 

E é a partir dessa ideia do absurdo – um paradoxo humano percebido no ato incessante de buscar significado em um mundo indiferente e desprovido de sentido – que Camus escreveu as suas principais obras: “O estrangeiro”, romance de 1942; e “O Mito de Sísifo”, ensaio filosófico lançado no mesmo ano.

Rick muitas vezes age como Mersault, mas não por incapacidade de compreensão do Absurdo. Mas sim porque o cientista não consegue achar um sentido para a sua existência. Acaba vivendo em um profundo niilismo, de vez em quando, por ainda não ter encontrado uma razão para viver. Apesar de, de vez em quando, caminhar nessa direção.

“Se este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida.”

Quando nos damos conta do absurdo da vida, da falta de sentido em nossas ações, há espaço para a reflexão sobre se ela vale a pena ser vivida ou não.

Toda a formulação do herói absurdo remete ao personagem de Rick, alguém que “conhece toda a extensão da sua miserável condição”. No entanto, há um problema nessa formulação: Rick não é como Sísifo da forma que Camus enxerga o mito. Ele não está feliz. No episódio “Ricksy Business”, por exemplo — o último da primeira temporada — , o Pessoa-Pássaro (Birdperson), melhor amigo de Rick até então, revela a Morty que o bordão de seu avô “Wabba Lubba Dub Dub ”, na verdade, tem sentido e significa: “Eu estou sofrendo muito, por favor me ajudem”.

“Eu só resgatei você e sua irmã porque se não a Beth não me aceitaria (…) Eu vou encontrar mais daquele molho Szechuan porque esse é o meu objetivo! (…)”

Summer se dá conta do Absurdo: ela descobre ser fruto do acaso, de uma gravidez não planejada, o que a faz se questionar acerca da falta de lógica por trás da vida, a indiferença do universo e o sentido da existência. Eis que Morty, preocupado com o estado da irmã, aparece para consolá-la. Após mostrar a ela aonde o seu próprio corpo está enterrado no jardim, conclui:

Rick and Morty, além de explorar as questões da existência humana em seus protagonistas que residem no mesmo núcleo familiar, as explora em praticamente todo episódio através do enredo de cada um e personagens de menor relevância. Por isso mesmo, é possível citar vários exemplos sem muito esforço sobre o uso de personagens com o único intuito de explorar esses temas.

Rick and Morty │ What is my purpose?Sab

Robô: “Qual o meu propósito?”

Rick: “Você passa manteiga!”

Robô: “Ó, meu Deus…”

Rick: “Bem-vindo ao clube, amigo.”

Dan Harmon e Justin Roiland criaram uma obra-prima. E se você não conhece tão bem assim o seriado, coloque a maratona em dia, porque esse sim é um programa que merece ser visto. Por fim, faço das palavras de Morty – que sintetizam o ensinamento da série – as minhas:

“Ninguém existe por um propósito; ninguém pertence a nenhum lugar; todos vão morrer. Venha assistir TV!” Revista SubjetivaThiago Süssekind

Distress Signal | Rick and Morty | Adult Swim

Here’s more: Cachimbo da Paz, George Orwell, 1984 e Revolução dos Bichos, Viajando na leitura! As Tranças de Bintou

Publicado por Edson Jesus

Welcome: https://edsonjnovaes.wordpress.com/ https://aicarr.wordpress.com/ https://mbaemopara.wordpress.com/2021/11/18/medicina/ https://jesushemp.wordpress.com/

15 comentários em “O EPISÓDIO DE RICK AND MORTY QUE ME FEZ ENTENDER A SOCIEDADE

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: